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Rússia abriu o mercado lácteo para o Brasil; empresas estão à espera

10, dezembro, 2014

A agitação que a demanda extra da Rússia está causando no mercado deproteína animal do Brasil, depois que o País virou substituto preferencial dascotas sancionadas dos fornecedores europeus e americanos, agora está levandoas indústrias lácteas a tentarem fechar os primeiros embarques até o final doano. Ao contrário das carnes, cujas portas estão abertas, os derivados de leiteentraram no apetite dos russos nas últimas semanas, que liberaram asprimeiras empresas e as negociações estão à mesa.Itambé, Tirolez, Polenghi, Confepar e Brasil Foods (BRF) já estão aptas aexportarem, liberadas a toque de caixa pelo Rosselkhoznadzor – o serviço deinspeção federal. Outras oito ou nove companhias deverão ser autorizadas nospróximos dias, assim que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento(Mapa) concluir a análise dos documentos e condições de qualidade e enviar osofícios à Rússia, informa o diretor-executivo da Associação Brasileira deLaticínios, Marcelo Costa Martins, que está na linha de frente nas tratativasentre o setor privado e os órgãos federais brasileiro e russo.A Rússia abriu mão de algumas exigências imediatas, adequando o CertificadoSanitário Internacional (CSI). “O Brasil não precisará do documento de ZonaLivre de Brucelose e Tuberculose, mas mantiveram as regulamentações quantoàs condições físico-químicas, microbiológicas e de embalagem”, diz o diretor darecém-formada entidade nacional, conhecida pelo nome fantasia de VivaLácteos.
A flexibilização do governo russo, no entanto, não tem só a ver com anecessidade urgente de suprir seu mercado com leite, queijos, manteiga, soro,entre outros, no vácuo dos europeus, australianos e neozelandeses, “masporque eles sabem que o Brasil está livre de problemas sanitários há muitotempo”. Essa garantia é dada por Carlos Humberto Mendes Carvalho, presidentedo Sindileite de São Paulo, um dos estados que tem mais a ganhar com a novajanela na Eurásia, pois se não tem uma bacia leiteira significativa concentramuitas empresas processadoras.
O curioso é que o Brasil vem sendo um importador líquido de lácteos desde2008, quando as vendas externas nacionais atingiram um ápice de US$ 540milhões. Já em 2013 a balança comercial teve um déficit de US$ 478,2 milhões,ou seja, importou US$ 595,2 milhões (159,1 mil toneladas) e exportou US$116,9 milhões (42,4 mil toneladas).
Mas isso não tem muita importância, segundo Costa Martins, da Viva Lácteos,porque as importações, transformadas em litros, representaram apenas 3,2%da produção nacional. Produção essa – na captação do leite – que não teriaacompanhando o alto consumo interno dos últimos anos, além do que semprehouve alguma pressão sobre os produtores para evitarem o excesso de ofertade leite, na visão do presidente do Sindileite SP.
Em 2014, a resposta no campo é mais positiva, “especialmente pelocrescimento dos estados do Sul”, explica Mendes Carvalho, bem como osmelhores preços pagos ao produtor e certa estagnação no consumo interno. Aoferta de importados vem caindo. De janeiro a agosto caíram 21,2% em valores (total de US$ 291,4 milhões) e 33,6% em volume (total de 69,2 mil toneladas),na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A posição externa da indústria láctea brasileira, até então dominada pelo leiteem pó (em torno de 70%), queijos e creme de leite (concentrado e nãoconcentrado), e basicamente alcançando apenas países do terceiro mundo podeser reforçada mais diversificadamente. Tanto em produtos quanto em destinos.
A entidade paulista que reúne as indústrias, aposta em queijos, manteigas esoro (basicamente usado na confecção de iogurte). A Polenghi e a Tirolez, porexemplo, são exclusivamente focadas em queijos e outros itens pasteurizados.“A demanda russa veio na hora certa, pois temos mais leite para processar euma indústria apta em qualidade e variedade”, anima-se o presidente doSindileite, que traça para o futuro um paralelo com a indústria de carnes. Hámenos de 20 anos o Brasil não tinha posição relevante no mercado mundial debovinos, frangos e suínos, o mesmo que hoje ocorre com o setor lácteonacional.
Dessa nova realidade que se impõe via Rússia, a maior beneficiária será amineira Itambé, líder tradicional nos embarques internacionais brasileiros.Terceira maior indústria láctea do Pais, com US$ 2 bilhões em faturamento em2013, detém 50% das exportações, com um mixliderado amplamente por leiteem pó integral e leite condensado. “Pena que leite condensado não é muitoconsumido na Rússia”, brinca Ricardo Cotta, diretor de gestão e relaçõesinstitucionais.Mas a manteiga da Itambé já está sendo negociada com os russos, em fasemais adiantada que o próprio leite em pó, de acordo com o executivo.
Nesse movimentado momento, o mercado se deparou com uma situação nomínimo curiosa: a gigante de carnes e alimentos processados BRF vendeu suaárea de lácteos à francesa Lactalis (dona da Parmalat), mas o processo detransferência dos ativos ainda não foi concluído.

Fonte: Selectus 4583, 10/12/2014, por Giovanni Lorenzon, Rural Centro

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