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De ânimo revigorado

01, junho, 2005

Aos 17 anos, a Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abiq) elegeu o futuro consumidor como uma de suas prioridades.

Novo fundo possibilitará à Abiq melhorar suas ações, como, por exemplo, sua nova página na Internet por Bruno Kaarna e Patrick Parmigiani Aos 17 anos, a Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abiq) elegeu o futuro consumidor como uma de suas prioridades. Fábio Scarcelli, presidente da entidade, explica a decisão: “Queremos refazer uma pesquisa de 1989, que nos deu o perfil dos consumidores de queijos. Passaram-se 16 anos, e a criança daquela época já virou um adolescente ou um jovem adulto. Seu hábito de consumo de queijo é o mesmo dos seus pais?” Para viabilizar esse levantamento, a associação contará com um fundo para financiamento deste trabalho. “Se de um lado há falta de emprego, aqui tem muito trabalho para fazer”, explica o atual diretor de marketing e presidente fundador da Abiq, Cícero Hegg. Na seqüência, Scarcelli e Hegg comentam este e outros assuntos em entrevista exclusiva à Revista Leite & Derivados, realizada no stand da Abiq durante a última edição da feira TecnoLáctea. Scarcelli, em seu terceiro mandato à frente da Abiq – comanda a entidade até 2006 – já foi presidente da Federação Panamericana de Laticínios (Fepale) por duas vezes e é responsável, atualmente, pela área comercial e financeira da Laticínios Heloisa. Por sua vez, Hegg, diretor da Tirolez, ocupa também os cargos de vice-presidente do Conselho Nacional da Indústria de Laticínios e é conselheiro da Associação Brasileira das Pequenas e Médias Cooperativas e Empresas de Laticínios (G-100). Quais são as preocupações atuais dos queijeiros? Cícero Hegg – Hoje temos demandas particulares, no que diz respeito às necessidades internas das nossas indústrias de conseguir atender às exigências do consumidor. Temos as questões com o governo, como tributos, normas, rotulagem de produtos e leis ambientais. Além dessas, há também a demanda referente às negociações internacionais do setor de lácteos. O Brasil precisa se posicionar, por exemplo, em relação à Alca que, politicamente, é uma questão, economicamente, é outra. Não podemos dar as costas ao maior consumidor do mundo. Isto é uma questão econômica e atinge muitas pessoas no setor de queijo. Há também a necessidade de conversar com o consumidor e explicar o que é o produto, porque hoje o consumidor sente-se muito traído e não sabe em quem acreditar. Qual é a maior dificuldade para recuperar a confiança desse consumidor? Fábio Scarcelli – Com a redução de renda do consumidor, muitas empresas fizeram mudanças, desde redução de embalagem até alteração de formulação. O consumidor percebeu que aquele produto não era mais o mesmo. Dentro da cadeia láctea, o queijo é o produto mais fiel, sempre feito a partir do leite. Não tem outra fórmula de fazer queijo. Nós precisamos divulgar mais isso. Sem contar seus aspectos nutricionais, pois 30 g de queijo equivale a, praticamente, dois copos de leite. Para uma criança que não gosta de tomar leite, se comer um pedacinho de queijo, seria outra forma de suprir sua necessidade de cálcio. E qual a mãe que não preferiria ver o filho comendo um pedaço de queijo, em vez de um salgadinho. Cícero – A Organização Mundial da Saúde já mostrou, alguns anos atrás, que se uma criança comer 30 g de queijo por dia, ela supre 60% da sua necessidade básica de cálcio. Como fazer os pais se acostumarem com à idéia? Cícero – Conversando, comunicando e desmistificando o queijo. O parmesão, por exemplo, tem muito pouca gordura e ninguém sabe. Dizer que o queijo amarelo tem maior teor de colesterol é um mito. Ele tem essa cor porque contém corante de Urucum, um ingrediente que, obviamente, não tem colesterol. Enfim, é passar mesmo a verdade, pois estamos carentes dela. Outros produtos lácteos seriam concorrentes do queijo pela preferência do consumidor? Fábio – Eles são complementares. Eu não vou dizer que se deva deixar de tomar iogurtes para comer queijo. O ideal seria tomar o iogurte de manhã junto ao queijo. O objetivo é ter um aumento de consumo de lácteos em todas as suas formas: fluida, iogurte, queijo. Hoje, estamos preocupados com o futuro consumidor. Queremos refazer uma pesquisa de 1989, que nos deu o perfil dos consumidores de queijos. Passaram-se 16 anos, e a criança daquela época já virou um adolescente ou um jovem adulto. Seu hábito de consumo de queijo é o mesmo dos seus pais? Isso que queremos medir novamente para não perder o bonde da história. De acordo com esta pesquisa de 1989, o queijo tinha aceitação de 97% das pessoas. Mesmo sem uma nova pesquisa nas mãos, qual seria, na opinião dos senhores, a porcentagem atual aproximada? Cícero – Seria prematuro indicar um número. Por esta razão, queremos constituir um fundo para investir o dinheiro em pesquisa, a fim de saber o que o consumidor pensa e qual é a sua receptividade, até para rever o levantamento de 1989 e identificar quais foram as mudanças nos hábitos de consumo do brasileiro. O fundo será criado para contarmos com mais colaboradores. Se de um lado há falta de emprego, aqui tem muito trabalho para fazer. Fábio – Para se ter uma idéia, contratamos uma profissional para aliviar a carga da diretoria da Abiq e o trabalho triplicou. Com o fundo, precisaremos contratar mais duas ou três pessoas para atender a essa nova demanda. Por sua vez, ela gerará outras demandas que deverão requerer mais gente para trabalhar. Isso é um multiplicador. Enfim, são ações, entre outras finalidades, de esclarecer nossas dúvidas, por exemplo, essa dos 97%. Atualmente, quanto será? 90%, 80% ou 100%? Só vamos conseguir isso se repetirmos o levantamento. No entanto, realizar uma pesquisa custa caro, e por isso deve existir o interesse do industrial ligado à área de queijo, a fim de haver um conhecimento maior até para ele medir as ações a serem tomadas. Hoje, não há bem mais precioso do que a informação. Nesse primeiro momento, queremos conseguir mais informações e colocar o banco de dados para funcionar. De posse delas, faremos outro simpósio [a Abiq promoveu um simpósio durante a TecnoLáctea – conheça os detalhes na matéria de capa desta edição da RL&D] e diremos: agora a fotografia é essa, o que vamos fazer? E como será arrecado o dinheiro? Fábio – A contribuição partiria dos queijeiros associados à nossa entidade. O fundo será gerido pela Abiq com bastante transparência. Ele propiciará também a manutenção da nova página da entidade na internet. O site, inclusive, tornará disponíveis informações para médicos e nutricionistas. Isso é uma coisa muito ampla e sem dinheiro não dá para fazer. Enfim, queremos dar um passo por vez, mas com muita consistência, até desaguar, quem sabe, em uma campanha institucional. Uma campanha nos moldes da promovida em 1989? Fábio – Naquela época, se conseguiu alavancar uma campanha muito interessante e a safra daquele ano proporcionou bastante tranqüilidade. Não houve estoque e todos venderam o seu produto a um preço justo. No entanto, logo em seguida, veio o Plano Collor com congelamento dos recursos, entre outras coisas, de modo a desestruturar o segundo passo da campanha. Cícero – Houve toda interrupção, o setor se desarticulou, a Parmalat entrou comprando indústrias. O setor mudou bastante: muitas empresas foram vendidas, algumas passaram a produzir leite longa vida e perderam o foco do queijo. Por exemplo, o ano de 1992 foi catastrófico. Atualmente, há queijo estocado? Cícero – No mínimo, há estoque de 10 mil toneladas. Essa quantia corresponde a 2%. A produção total brasileira é de 700 mil toneladas; oficialmente, 500 mil. Tradicionalmente, estocava-se na safra e era feito o estoque regulador, vendido na entressafra, mas como a entressafra está se antecipando e seu período é menor, além de um preço do leite muito atrativo, não haverá uma queda de produção tão grande. Com o estoque alto e a demanda baixa, corre-se o risco de ficar no prejuízo e o queijo cair de preço. Assim, devemos trabalhar no sentido de estimular e recuperar o consumo. Saindo da demanda interna para a externa, como estão as exportações brasileiras? Cícero – O Brasil já exporta há quatro anos. O que atrapalha um pouco é a valorização do real frente ao dólar e a matéria-prima com um valor muito alto. Participamos de feiras internacionais no ano passado em Paris e tivemos muitas consultas. Aqui mesmo nesse simpósio, há uma pessoa do Oriente Médio querendo um abastecimento expressivo de algumas toneladas por mês. Isso ocorre por vários motivos: a Europa está diminuindo o seu subsídio; a produção da Austrália e a da Nova Zelândia estão próximas de seu limite; a Argentina apresenta crescimento, também limitado. Enfim, quem tem capacidade de aumento de produção é o Brasil. Para nós, com nossos 23 bilhões de litros ao ano, é fácil pularmos para 40 bilhões. O Brasil seria o único país do mundo capaz de realizar isso? Cícero – Sim, porque temos condições climáticas favoráveis e um nível médio de produtividade por vaca ao ano muito baixo. Assim, qualquer modificação genética introduzida, provoca um salto muito grande. Com isso, em três anos, passa-se a ter uma novilha com uma carga genética muito melhor, que dará um incremento qualitativo e quantitativo na produção de leite muito grande. Os impostos que incidem sobre o setor chegam a atrasar esse desenvolvimento? É possível reduzir a carga tributária? Cícero – A maioria dos países grandes produtores de leite subsidia o leite. Aqui, o leite é sobretaxado tributariamente. No meu entender, a carga máxima que o setor de lácteos agüentaria pagar entre todos os impostos é de 2%, para realmente segurar e sustentar um setor altamente empregador. Fábio – É uma luta constante. O mundo inteiro subsidia a produção de lácteos e o Brasil cobra imposto dessa produção. Só queremos um imposto justo porque é um produto comprado, em sua maioria, diretamente de pequenos produtores rurais. A Europa gasta bilhões para fixar esse homem no campo, aqui não precisaríamos gastar nada, apenas dar uma tributação mais suave. Com isso, ele vai ser melhor remunerado e, automaticamente, a produção vai aumentar, possibilitando ao Brasil uma vaga entre os maiores exportadores de lácteos do mundo.
Fonte: Revista Leite & Derivados - nº 84

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