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Setor enfrenta desafio de se comunicar com as novas gerações

29, novembro, 2019

Ficou claro durante todo o Dairy Vision 2019 a necessidade imediata do setor de comunicar seus métodos de produção, fazendo jus à premissa “não basta ser bom, tem que parecer bom”. Esse tema foi particularmente discutido durante os painéis “O consumidor do futuro (do presente?) e os desafios e oportunidades dos laticínios” e “Casos de negócio na cadeia do leite”, sobretudo com as palestras de Luis Madi, do Instituto de Tecnologias de Alimentos (ITAL), María Inés Rimondi, da Revista Infortambo, Luiz Fernando Laranja, da Kaeté Investimentos e KM Jhala, da cooperativa indiana Amul.
 
Madi destacou que as empresas devem focar em dois critérios para prever o consumo: geração e comportamento das pessoas. Expôs também que a geração que detém maior força de trabalho e poder aquisitivo atualmente são os millenials, os quais são muito mais “antenados” que as gerações anteriores, o que explica essa busca e necessidade de mais informações sobre os produtos consumidos e de inovação (como já foi exposto nas notas anteriores sobre o evento, confira no final do artigo).
 
Contudo, o grande dilema é que, em algumas circunstâncias, as informações que chegam aos consumidores são equivocadas e distorcidas, cabendo ao setor (produtores e indústria láctea) aprenderem a se comunicar bem. Pensando nisso, María Inés, falou sobre como criar narrativas positivas para o setor lácteo. Ela ressaltou a importância de os produtores assumirem a responsabilidade de comunicação e citou exemplos de países referência em produção de leite e vítimas constantes da desinformação dos consumidores. Para tentar contornar isso, os produtores destes países estão fazendo campanhas a fim de mostrar que por trás das fazendas existem pessoas comuns, que têm vidas comuns e que também são consumidores.
 
María Inés enfatizou que criar uma narrativa positiva não se resume em combater os comentários negativos, mas em contar histórias reais. Mas como contar, onde contar e o que contar nessas histórias? Segunda ela, devemos sempre tratar o assunto com entusiasmo, mostrando amor e orgulho pela atividade, tanto nas mídias sociais como em escolas, jantares com os amigos ou até na própria fazenda, construindo uma área de “bem-vindo” para acolher e conversar com os consumidores. Por esses meios, deve-se falar das práticas sustentáveis e de bem-estar adotadas, pessoas empregadas pelo setor, motivos para ser produtor de leite e em que aspectos ainda há pretensão de melhorias. Observou ainda que outros profissionais podem ajudar nessas narrativas, sobretudo professores, educadores infantis e chefs de cozinha, que são grandes formadores de opinião no contexto dos alimentos.
 
Mas, além de contar histórias, é necessário que elas sejam reais e não “contos da Disney”. Nesse contexto, Luiz Fernando Laranja, da Kaeté Investimentos, citou um exemplo recente de como a narrativa precisa ser embasada na realidade. A indústria de sorvetes americana Ben & Jerry’s promove seus produtos destacando que são produzidos com leite de “happy cows”. A empresa foi recentemente processada por um consumidor que alegou que apenas uma porcentagem minoritária do leite utilizado era oriunda dessas vacas, enquanto o restante vinha de produção industrial, a qual os consumidores queriam evitar. Este acontecimento mostra que esta geração também não aceita “histórias mal contadas”. Em resumo: o setor lácteo precisa de narrativas reais, positivas e bem comunicadas e as empresas precisam estar preparadas para lidar com um consumidor muito mais atento e pró-ativo.
 
Como exemplo de boas narrativas, Laranja falou de pequenas empresas apoiadas por seu fundo de investimento, que atua em projetos de produção de alimentos na Amazônia. Ele, que também trabalha com pecuária leiteira orgânica, criticou a errônea ideia difundida no Brasil de que, para a atividade leiteira ser rentável, os pequenos produtores devem crescer em volume ou saírem da atividade. Segundo ele, também há grandes perspectivas para a agricultura familiar.
 
Para Laranja, essas narrativas, sobretudo as voltadas para agricultura familiar, muitas vezes são confundidas pelo viés ideológico. Mas, de acordo com ele, “isso se trata de business e não de ideologia.” Além disso, as grandes empresas (lácteas ou não) têm importante papel socioeconômico e devem assumir essa responsabilidade. Uma forma de fazer isso é por meio da inovação na cadeia de fornecedores, como, por exemplo, a valorização da produção familiar e sustentável. Como exemplo de empresas do setor lácteo que começaram a olhar para isso, ele citou a Danone, com a marca Paulista, que traz nas caixinhas de leite os dizeres. “Nascemos de uma cooperativa de pequenos produtores apaixonados por leite”. “Certamente esses dizeres estão na embalagem porque conferem valor ao produto”, ponderou. Mencionou também a nordestina Betânia que tem compromisso firmado com a agricultura familiar, como pode ser visto em seu próprio site por meio dos dizeres “A história da Betânia se mistura com a de muitas famílias do Nordeste”.
 
Ainda de acordo com Laranja, o setor tem à disposição muito material científico e de credibilidade que mostra a importância da atividade como geradora de renda. Segundo ele, de acordo com as Nações Unidas, a pecuária de leite é uma das principais atividades que pode contribuir para atingir os objetivos do milênio, dentre eles, agricultura sustentável, erradicação da pobreza e fome, promoção da saúde, bem-estar e igualdade de gênero. Mas não basta que essas informações sejam publicadas em veículos científicos, mas sim divulgadas de forma mais ampla para a sociedade. Corroborando com essa afirmação, María Inés acrescentou que “a ciência deve ser mais acessível” e a informação precisa chegar também ao público consumidor.  “O consumidor não é um especialista”, mencionou ela.

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