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Cícero Hegg, dirigente do Sindicato da Indústria de Laticínios do Estado de Minas Gerais, foi o convidado da Live do Tempo desta segunda-feira (15)

17, junho, 2020

Setor lácteo cresce 15% nesse ano, por Cícero Hegg. Veja entrevista e assista live ao entrar no vídeo.

Setor lácteo cresceu cerca de 15% neste ano, diz vice-presidente do Silemg

 
O setor lácteo cresceu em torno de 15% neste ano, de janeiro até 24 de maio, segundo informou Cícero Hegg, vice-presidente do Silemg, em participação na live do Tempo. Segundo ele, o setor sentiu impactos do aumento do consumo em função de as pessoas, num primeiro momento da pandemia, terem corrido para fazer estoques. Ele cita também o pagamento do auxílio emergencial. Houve produto que chegou a crescer quase 40% nesse período.
  
O cenário é de crise no setor leiteiro nos últimos quatro anos, com queda de preço e de consumo em vários produtos, inclusive queijo, e agora, vem essa nova crise. Como está sendo a situação do sindicato nesse momento? Estou há 40 anos no setor, não diria que o setor está em crise há quatro anos. O setor, como o Brasil vive, entre saídas e entradas de crise, o tempo todo nesse tempo da minha empresário. Mas se a gente quiser se estender e buscar um pouco esse passado mais recente, eu entendo que o consumo de alimentos está ligado à economia do país. Nos últimos anos, a nossa economia foi bem atrapalhada, com quedas de PIB, e os láteos não conseguem escapar disso. Em 40 anos fazendo queijo eu tive apenas um produtor que me procurou que disse estar satisfeito com os preços. não é nada novo. Se a gente for olhar o momento, desses 90 dias de pandemia, em cada semana, em cada dia, estamos no quarto momento de interferência nos lácteos. Num primeiro momento, final de março, houve correria para abastecer. No segundo momento, houve queda de consumo e muita preocupação com as indústrias sinalizando não recebimento de leite. Algumas empresas colaboraram, e o Brasil não jogou uma gota de leite fora. Terceiro momento começou com essa enxurrada de dinheiro (da primeira parcela de R$ 600 do auxílio emergencial). Foram injetados R$ 40 bilhões na economia. O Bolsa Família são R$ 30 bilhões por ano. De novo houve uma procura e um ajuste. Culminou com esse momento, no pico de entressafra, com aumento muito grande de consumo de lácteos e queda nas importações. Houve também nos últimos anos, um ganho dos lácteos dividido. A indústria perdeu um pouco,  o varejo ganhou um pouco e o produtor também ganhou um pouco.
 
Alta de preços de leite e de alguns laticínios nas gôndulas. É sazonal, tem também componente da pandemia? As duas coisas juntas. Alguns segmentos do setor láteo, especialmente o longa vida. já vinham um ano e meio muito sofrido, com margens negativas. No momento em que a demanda aumenta é natural, lei do mercado, de realinhar o preço. Os queijos também vinham sofrendo nos últimos 12 meses sem margem. O que vinha recuperando um pouco mais era o leite em pó. Realinhando deve durar 30, 60 dias no máximo. Há sinalizações de aumento da produção no Sul, no Triângulo MIneiro, e com a queda dos preços dos insumos.
 
Insumos sofrem com a questão do câmbio? Insumos, proteínas, tem essa influência. No ano passado, com insumos baixos para o produtor, houve estímulo para a produção de leite, este ano começou mais difícil, preços um pouco achatados, mas estamos assistindo queda.
 
 
Empresários supermercadistas chegaram a afirmar que no momento mais crítico da pandemia, o reajuste dos preços de leite nas gôndulas  estava ocorrendo porque as indústrias impunham preço. Isso aconteceu realmente? É a eterna discussão entre comprador e vendedor. O leite longa vida sofreu sofreu nos últimos 18 meses com preços aquém do necessário, tanto que muitas empresas diminuíram sua linha, alguns transferiram leite líquido para leite em pó. Quando você está disputando leite no campo como agora, se o mercado sobe você tem que subir. Defendo equilíbrio, mas é assim mesmo. Não tivemos importação. Aumentos de consumo foram elevadíssimos em alguns segmentos de janeiro a 24 de maio: 30,5% no preço físico do queijo; leite, 26,8%; leite em pó, 18,6%, yogurte, 8,2%; manteiga, 8,8%. por causa da aumento da demanda. Pessoal ficou em casa e consumiu mais. No mundo, só EUA é que colocaram tanto dinheiro na mão do consumidor como no Brasil. Reflexo no consumo. Momento seguinte a gente não sabe, mas o longa vida, queijo deram estabilizadas. Lácteos têm uma imagem, verdadeira, de nutrição. 
 
Se for pegar queijo, requijão, mussarela, preço médio se compara com o da carne ou é até mais caro. Por quê, carga tributária, processo industrial, insumo que eleva tanto o preço de um queijo, por exemplo? Cada categoria de alimento em a sua margem de lucro do supermercado. Relação entre preço do leite pago ao produtor e ao consumidor não pagando a industrialização. No queijo mussarela, por exemplo, é comodity, supermercado usa como gancho de atração. Com advento do longa vida na década de 1990, passou a fazer esse gancho também. De forma geral, os supermercados, botam uma margem superior ao da carne. Carne tem a questão da exportação que os lácteos não têm. Leite longa vida e mussarela  sempre estão em ofertas. Requeijão se popularizou e ocupou lugar até da manteiga e da margarina.
 
Tem questão tributária envolvida? Outro ponto, o setor trabalhou incansavelmente e conseguiu colocar a cadeia láctea justa, conseguimos carga tributária adequada para o setor. Com a reforma tributária, é importante que a classe política e as lideranças consigam manter. Mas tem a parte desagradável. Marcas querem compensar produtos que não têm resultados muito bons. Tem rede de supermercado que dobra o preço da indústria. Falta escala de produção e de venda. 
 
Crise da pandemia afetou o setor de alguma forma, como travar investimentos, emprego, teve fechamento de indústria? Tudo foi e está sendo feito para o vírus não chegar nos colaboradores. Houve no primeiro momento algumas indústrias muito focadas no food-service se viram sem ter o que fazer com os produtos, ameaçando fechar. As indústrias conseguiram capturar esse leite. Pouco a pouco voltou a funcionar. Tenho pouca notícia de indústria que fechou as portas. Nesse aspecto podemos dizer nesse momento que fomos agraciados com oportunidade  de abastecer e fazer doações para os mais necessitados.
 
De quanto foi o crescimento nas vendas, em média? Em torno de 15% neste ano, de janeiro até 24 de maio. Sobre investimentos,  começando por Minas Gerais, tivemos uma torre em Patrocínio, co produção de 400 mil litros por dia, com capital próprio. Uma outra torre em Antônio Carlos, de secagem de leite. Nossa indústria de Tiros, a Tirolez, é a mais moderna de mofo branco, camembert e brie, da América Latina. Processo todo automatizado, equipamentos importados. Dobramos a capacidade de fabricação do queijo gorgonzola. É uma planta que inauguramos em 2010. Toda indústria do setor precisa fazer manutenção, nível de investimento muito alto, tudo inoxidável. Brasil tem hoje salvo queijo e yogurte, sobra de 25% a 30% de capacidade instalada a mais do que está produzindo, Queijo e yogurte uns 15% de capacidade ociosa no pico da safra. 
 
Qual o volume de investimentos feito na Tirolez? Qualquer pequena modificação numa indústria, antigamente a gente falava em R$ 1 milhão por ano, em manutenção da indústria, hoje esse valor vai em poucos meses só em manutenção, troca de equipamentos. Desgate é grande. Níveis de investimento só a fábrica demandou, fora a infraestrutura, R$ 20 milhões. Temos capacidade de 90 toneladas mês num turno. A torre de secagem com capacidade para 400 mil litros de leite, hoje custa R$ 100 milhões. Investimentos altos. Defendo um esclarecimento para o consumidor, diálogo, todos elos da cadeia. Momento é de entendimento, não de confronto.
 
Minas agora tem o Conseleite. isso pode ter impacto nos preços, é preciso conversar com os supermercados? Tudo é válido, fizemos no passado e não fomos muito bem entendidos. Cada momento é um momento, Mesmo com o Conseleite, que eu questiono o valor e a importância dele, Primeiro não é deliberativo, não define o mercado. Leite era tabelado até outubro de 1991. Com a liberaçção, os lácteos adquiram nova dinâmica, particularmente não sou a favor de tutela do Estado, apenas deve se restringir a algumas áreas. Conseleite pode ser orientativo, apaziguador, ajudar a gente entender as dificuldades de cada elo da cadeia, mas não vem pagar a conta da indústria, do produtor. É discutível. Saudável, sim, dá trabalho, não sei, ainda estamos experimentando. Tivemos problema com o Conseleite porque ele olha para trás e saiu com alguns deliberações que atrapalha o setor. Precisa de ter lideranças de produtores de leite, que conversem com a indústria.
 
Qual a saída se o Conseleite não está dando certo? Deu certo 11 meses, onde a indústria pagou preços mais altos do que os estabelecidos por ele. Bastou o primeiro mês não acontecer, deu errado, não é justo. No Paraná, onde o Conseleite é mais antigo, 20 anos, via de regra, o mercado paga acima do que ele apregoa. Não sei, precisaria fazer um balanço do que ele está trazendo de bom, não temos muito tempo para perder e de repente juntar todo mundo em uma reunião. Precisamos analisar. Não estou contra, só questionando se a gente fazer uma avaliação. O que avançamos, ganhamos, o que a classe do setor primário ganhou.
 
O produtor reclama historicamente do valor que é pago a ele. O que fazer, vem pesando uma série de exigências sanitárias que encarecem a  produção. É mais uma questão de minimizar os custos ou de um repasse melhor, uma remuneração melhor. Como equilibrar essa conta? Com todo o respeito à classe produtora, Iniciei a Tirolez indo nas fazendas, conhecendo o produtor, sua realidade. Tenho consciência da dificuldade dele. Cultura brasileira vem muito do coitadinho, do pobrezinho, está errado. Nos últimos 40 anos vimos uma modificação enorme na produção de leite. Antigamente com 100, 150 litros de leite, sustentava uma familia, hoje não consegue. Setor se modernizou, dizer que a gente vai pagar mais se o mercado não remunerar o nosso derivado não tem jeito. Cada um está olhando para dentro de si, indústria está apertada, precisa de escala. Não defendo só a produção pela escala. Brasil são vários países, tem vários modelos de produção de leite que são rentáveis. Sul está crescendo nos últimos dez, 20 anos a produção de leite, com estrutura familiar. Alto Paranaíba (MG) se mostrou tão eficiente na produção, produtor tem os grãos do lado, tem uma visão mais empreendedora. Queixar de preço e de resultado todo mundo vai, mas alimentar o choro não é bom, precisa ajudar as pessoas a se empoderarem, e é o que está acontecendo. 
 
Pode explicar como consumidor pode se precaver dos preços mais altos? O leite longa vida. A indústria está pagando próximo a R$ 1,70, R$ 1,90, R$ 2 o litro de leite neste mês para o produtor rural. Ele está sendo vendido a R$ 3,20, R$ 3,30. A industrialização custa R$ 1. Margem que está sobrando é no máximo de 10%. Alguns tipos de queijo a margem é muito alta, mas a muzarela está sendo vendida nos últimos 12 meses a R$ 12, não pagava o leite. Queijos especiais tem uma margem maior. É bom lembrar que se gasta dez litros de leite para fazer um 1 kg  de queijo. Tem a cadeia, produção, logística e promotor no supermercado, por conta da indústria.
 
Tem o prazo de validade.... Precisa decidir o que o Brasil quer ser no leite, consumidor interno ou exportador. Aí você passa a ter uma paridade com o mercado internacional. Caminho a ser feito.
 
Tem incentivo para isso? Tem grandes players na Nova Zelândia, EUA, Comunidade Europeia, que sempre subsidia suas exportações. No Cone Sul, Argentina, Uruguai. Fora isso é muito pequeno. Nós mesmos exportamos queijo, uma ou outra empresa do Sul exporta leite em pó. Tem que ir aprendendo, único setor do agro que ainda não se impôs como exportador. a qualidade dos nossos produtos é igual aos estrangeiros. 
 
O que falta para a exportação? Temos participado de feiras, temos a Apex. Talvez tenha faltado nos últimos governos são acordos bilaterais. Aí o Estado pode atuar. Fazer acordo só através do Mercosul nós perdemos tempo. O Chile tema acordos com muitos paises. Vamos exportar para o Canadá são 240% de imposto. Outro ponto é o entrosamento entre os órgãos de governo, ministérios secretaria, Anvisa e o setor industrial. A gente quer estimular a inovação. Embrapa é um exemplo. Tem melhorado muito, mas ainda é preciso perceber que estamos juntos. Para a inovação acontecer precisa ter flexibilidade, bom senso. Acreditar que o setor privado está querendo fazer uma coisa boa. Ministério da Agricultura foi muito enxugado, está sobrecarregado. Tem lugares com muita gente e outros faltando pessoas.
 
Falta poder para o Ministério da Agricultura? Falta autonomia, funcionário público tem muito medo e eu entendo. Mas precisa trabalhar a legislação e ele entender que estamos juntos. Muitas vezes um fiscal entende uma coisa de um jeito, num outro Estado é diferente. Tem visto boa vontade do ministério e da Anvisa. Brasil precisa acreditar. Estamos vivendo uma doença da solidariedade. Reinventar.
 
O presidente da Faemg defende a ascensão de uma classe média rural e uma organização melhor em cooperativas. É mais a fácil a indústria negociar com um produtor ou melhor com vários através de cooperativas? Depende do modelo. Brasil já teve 60% do leite comprado pelas cooperativas. Veio caindo ao longo das últimas quatro décadas, hoje compram em torno de 30%. Nos EUA, 80% do leite são comprados por cooperativas que revendem para a indústria. Depende da competência da cooperativa. Aqui no Brasil muitas  vezes ela tem o domínio político.
Fonte: https://www.otempo.com.br/live-do-tempo/setor-lacteo-cresceu-cerca-de-15-neste-ano-diz-vice-presidente-do-silemg-1.2349553

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